Segunda, 10 de Agosto de 2020
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O Inimigo Oculto

Por Marcos Lima Mochila

29/03/2020 20h41 Atualizada há 4 meses
Por: Marcos Lima Mochila
Passeando na Praia com Maria Clara (Foto: Jéssica Couto)
Passeando na Praia com Maria Clara (Foto: Jéssica Couto)

Há 15 dias em isolamento familiar, junto com minha mulher e nossa filha de 6 anos, muitas vezes penso que estou vivendo um pesadelo. 

Aliás, estamos todos – no mundo inteiro – vivendo um pesadelo, diferente daqueles que, de vez em quando, povoam nossos sonhos. 

Não sei se acontece o mesmo com todos que têm pesadelo, mas quando estou num meio de um deles, geralmente penso – ou falo – “isso é um pesadelo, logo vai passar”. 

Tenho repetido isso reiteradamente, dia após dia, mas continuo vivendo o pesadelo, não acordo de jeito nenhum. 

Então, concluo que esse pesadelo é diferente. É um pesadelo que vai demorar um pouco mais, porém “é um pesadelo e logo vai passar”. 

Esse “logo” pode durar mais algumas semanas, quinzenas ou meses – sei lá -, mas vai passar. 

Para enfrentá-lo, em primeiro lugar, tenho conversado mais com Deus. Tenho pedido a Ele para cuidar de meus filhos e netos, de minha mulher, da mãe de minhas 3 primeiras filhas, da minha família, cuidar dos pobres e desvalidos que vagam pelas ruas desertas, como zumbis, sem teto e sem comida. Tenho pedi a Ele para cuidar de mim. 

E enquanto esse “logo” não passa, além de conversar muito com Deus, eu tento ler mais do que o usual; escrever mais; fazer projetos e, sobretudo, acompanhar o que se passa pelo mundo afora embora, nesse caso, tenha que ler jornais, revisas, ouvir rádio, assistir televisão e aí a coisa descamba para a decepção. 

Decepção ao perceber que a maioria dos políticos estão se aproveitando desse momento para querer ser “a tampa de Crush”, o ninja, o cara. Cada um que queira mostrar mais ações, mesmo que não tragam nenhum resultado. Ah! E tem que malhar, falar mal do presidente. 

É nessas horas que paro tudo, deixo tudo pra trás e vou brincar com a Maria Clara, minha filha mais nova, quando lucro muito mais. Pelo menos aprendo coisas novas: como fazer um almoço sem alimento nenhum, botar boneca pra dormir, jogar pra perder, e ser criança outra vez. 

E se depender de passar o tempo, brincadeira é o que não falta. Nesses 15 dias já joguei bola, peteca, acompanhei passeio de patinete, dei várias voltas ao redor do prédio em que nós moramos, já nadei em piscina no meio da sala – sem água -; já fiz coisas nunca dantes imaginada. 

Andar na praia, deixando de lado a calçada, e passeando pela areia mesmo, de manhã cedo, também é um programa saudável e, concomitantemente, também o tempo passar mais depressa. 

O isolamento também ajuda a conversar mais – consigo mesmo. 

Nos faz também desejar coisas que já não desejávamos nos últimos tempos. Como desejar que o tempo passe mais depressa que, antes do isolamento, queríamos que passasse mais lentamente, para nos dar mais tempo, para demorar mais o nosso envelhecimento. 

E pensar que Anne Frank e sua família passaram mais de dois anos confinados poderia até servir de alento mas isso só nos deixa mais apreensivos. Afinal, a família Frank passou esse tempo todo escondida de um inimigo que existia, era concreto, pode ser visto, tocado, evitado até. Nós estamos confinados, escondendo-nos de um inimigo invisível, traiçoeiro, que se espalha pelo mundo todo e pode, inclusive, já estar dentro de nossa casa. 

Fica a dúvida no ar: qual o inimigo mais poderoso?

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